quarta-feira, 3 de setembro de 2008

A VELHA ESCOLA - PARTE 2

PARTE II - 2002

Marcelo finalmente realizara seu sonho. Estava terminada a faculdade. Agora, imaginava ele, tinha todo um futuro a sua frente.
Marcelo então se lembrou de alguns fatos que marcaram seu período na escola. Lembrou-se então do professor Lúcio Pereira.
Subitamente se viu tomado por uma curiosidade. Será que o professor sabia que o aluno que sempre brigava com ele se tornara nada menos que um professor? Não de literatura, como ele, mas de história, entretanto ainda assim um professor.
"Engraçado", pensou, "os rumos que a vida toma. Desde a sexta série eu tenho problemas com um professor, e quando me formo, viro um professor"
Naquele momento, pensou em Clara.
Clara que se mudara para os Estados Unidos assim que terminaram o segundo ano, pois seu pai arranjara um novo emprego que demandara uma mudança.
Como ela fazia falta... Tudo que Marcelo queria era Clara ali, ao seu lado, no momento mais feliz de sua vida.

***

Fernando apertou mais o parafuso.
"Que situação, pensou ele".
Desde que repetira o segundo ano, Fernando nunca mais fora o mesmo. Quando repetira a segunda vez, ele saiu do colégio.
Seu pai o obrigara a estudar em um colégio público. Depois de seis meses, fugira de casa. Arranjara um pequeno emprego como mecânico, mesmo que não entendesse nada de mecânica, que dava pra pagar "qualquer merda" em algum canto da cidade.
Com o tempo, conquistara a confiança do patrão, e passara a entender de mecânica. Agora já ganhava um salário maior, o que não queria dizer muita coisa.
Enquanto apertava o parafuso, seu patrão o chamou.
Ao entrar na sala imunda em um canto da oficina Fernando percebeu que não estava tudo bem.
Seu chefe aparentava cansaso, além das visíveis olheiras em seu rosto. Algo estava muito errado.
- Por favor, Fernando, sente-se. - disse o chefe - Olhe isto.
E o chefe estendeu um papel, que visivelmente fora dobrado e desdobrado inúmeras vezes.
Fernando não podia acreditar no que via. Era impossível. Como as contas poderiam fechar assim.
O chefe percebeu a surpresa de Fernando, e se limitou a confirmar com a cabeça, até que finalmente falou:
- Por conseguinte, vamos ter que fechar a loja.
- Mas... Carlos, e todos os funcionários? - perguntou Fernando - E eu!?
- Sinto muito, Fernando, mas é inevitável.

Fernando ainda se perguntava como conseguira chegar à casa naquele dia. Cada passo parecia que uma bigorna estava atada aos seus pés. Ele via seu futuro indefinido. Como sairia daquela situação? Ainda tinha suas economias, mas elas não durariam muito.

**** 2 meses depois ****

Marcelo não acreditava que recebera aquele telefonema. Pegara seu carro, recém adquirido, e partira em direção ao aeroporto. Tantos anos depois, e Clara estaria de volta.
Assim que chegara, ao invés de pegar um táxi, Clara o telefonara para que ele fosse buscá-la.
Assim que encostou o carro no terminal ele a viu. Maravilhosa, exuberante. Ela se dirigiu ao carro, colocando sua bagagem no porta-malas.
Mesmo sem muitas esperanças, Marcelo se arrumara para convidá-la para jantar. Como se estivesse tudo ensaiado ele começou:
- Então, Clara, onde vai pretende ficar, agora de volta ao Brasil?
- Na casa de uma prima, não muito longe da sua, pelo menos até eu alugar um apartamento ou coisa assim.
- Entendo
- Assim que eu me acertar melhor aqui eu te ligo, e a gente faz alguma coisa.
- Mas... você gostaria de ir jantar comigo hoje?
- Hoje? Sim... claro.
- Então vamos.
- Assim, direto daqui?
- É!
Clara pareceu surpresa, mas logo se recuperou, de forma a aceitar o convite de Marcelo. Naquele noite, depois de algumas bebidas, eles acabaram confessando sentimentos um pouco mais profundos um pelo outro, e, como alguns muitos jovens como eles, acabaram na casa de Marcelo. O celular de Clara tocava sem parar, sua prima tentando, preocupada, falar com ela.
Mas aquela noite era deles. E depois desse dia, não se largaram mais.

***

Fernando passara os últimos dois meses vivendo de suas economias, que já estavam acabando. De vez em quando voltava seus pensamentos para o velho pai, e onde estaria agora. E foi em um desses dias que tomou a decisão de procurá-lo.
Chegou à sua casa durante a noite, e bateu na porta.
Alguns segundos depois seu pai apareceu, vestindo pijamas e fumando um cigarro. Não pareceu feliz em ver Fernando.
- O que você quer?
A aspereza em sua voz surpreendeu Fernando.
- Pai... eu fui demitido, preciso de ajuda!
- E agora você vem me pedir ajuda. Aqui a ajuda que eu vou te dar.
Entrou em casa, pegou a carteira, tirou uma nota de cem reais e colocou na mão do filho:
- Talvez um dia você volte para esta casa com a mesma aparência com que saiu. Nesse dia eu aceito você como filho novamente.
E bateu a porta.
Fernando apertou os cem reais em suas mãos, e saiu.
Ao sair, notou uma movimentação estranha em um beco cem metros adiante. Era um assalto. Fernando se aproximou sorrateiramente. Sem que o meliante percebesse, ele chegou perto por trás, e com um rápido movimento, tirou a arma das mãos do sujeito.
- Vaza daqui!
Disse Fernando, apontando a arma para o bandido. A vítima então também saiu correndo, deixando Fernando sozinho com a arma em mãos.
Guardou a arma em uma gaveta, e por mais algumas semanas permaneceu olhando para ela, pensamentos maldosos percorrendo sua mente. Roubar, uma forma mais fácil de conseguir dinheiro!
E assim seria.
Foi no mesmo beco onde conseguira a arma. Esperou alguém se aproximar. Rendeu um pobre cidadão. Pegou o dinheiro dele. Antes que se desse conta, o homem avançou sobre ele. Dois disparos.
Fernando pegou a carteira da vítima e saiu correndo, repetindo para si mesmo que fora um acidente, quase que religiosamente.
Mas não fora, e Fernando sabia disso. Era bom. Era fácil. E era quase garantido.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

A VELHA ESCOLA - PARTE 1

O conto A VELHA ESCOLA será dividido em quatro partes, em quatro anos distintos.
Aqui vai a primeira.
A Velha Escola


Parte I - 1995

Marcelo chegou ao colégio. Era uma quinta-feira. O dia da aula de literatura, no primeiro ano do Ensino Médio. Ele tinha motivos para temer a aula. O professor não era exatamente o que se chama de flor-que-se-cheire. "Mais um dia isso será claro para todos", pensava Marcelo.
Talvez sua infelicidade só se comparasse em tamando à felicidade de Fernando, chegando ao mesmo colégio, colega de classe de Marcelo. Literatura não era exatamente seu forte, talvez porque leitura não fosse sua atividade preferida, mas o professor era, na sua opinião, muito gente boa, um cara ótimo.
Marcelo e Fernando não se gostavam muito. Faziam trabalhos juntos quando precisavam, mas nunca foram amigos, nunca frequentaram os mesmos locais e quase nunca concardavam.
Ambos entraram na sala de aula ao mesmo tempo.
O professor Lúcio entrou. Como sempre, trazia em suas mãos uma pasta de tom bege, onde colocava toda a sua papelada e etc.
- Bom dia.
Disse ele, e a turma automaticamente respondeu a mesma coisa.
- Por favor, sentem-se - ele falou pra alguns alunos, no que foi obedecido - bom, eu pedi pro inspetor trazer a televisão pra cá. Como hoje entraremos em Barroco, quero que vejam um vídeo feito pelo primeiro ano do ano passado sobre isso.
"Melhor assim", pensou Marcelo, "pelo menos ele não vai me encher a paciência".
O vídeo começou. Marcelo percebeu uma movimentação no canto da sala. Era Fernando, que junto com Marcos, Camila e Pedro faziam uma baguncinha. O professor Lúcio olhou para lá. Pareceu que os alunos tinham entendido a mensagem, e por alguns minutos, ficatam mais quietos.
Então o barulho recomeçou. O professor, percebendo que somente seu olhar não adiantara, resolveu dizer alguma coisa.
- Meus queridos, por favor...
- Pô, desculpa aí, professor - disse Fernando - foi mal.
O vídeo que recomeçara. Lúcio se sentou bem atrás de Marcelo, que somente por isso se sentiu desconfortável. Então percebeu um detalhe. Ele poderia estar na frente do professor.
- Professor - disse ele - eu tô na sua...
- Olha o vídeo.
Interrompeu o professor rispidamente.
- Mas eu... - continou Marcelo - eu tô na sua frente?
- CALA A BOCA - berrou o professor, sobressaltando toda a turma - não percebeu que eu quero ver o vídeo.
Marcelo calou a boca, se sentindo um pária em relação a turma. A raiva subia a sua cabeça. Mais um pouco, um único ato daquele desgraçado, e ele iria explodir.
Foi então que sentiu uma mão nas suas costas. Era Clara. Se não fosse por essa menina, ele não aguentaria as aulas de Lúcio. Só ela era capaz de perceber o quanto ele se sentia injustiçado pela clara preferência daquele monstro em relação aos outros alunos, exceto ele. Era sempre ele que o acalmava. Era incrível, e muitos, quando ficavam sabendo, não acreditavam, que não aconteceu nenhum tipo de relacionamento além de amizade entre eles.
- Professor, posso ir ao banheiro?
Perguntou Fernando.
- Espera acabar o vídeo.
Respondeu o professor.
- Mas professor, é sério...
Se fosse valer a lógica do que o professor fizera antes, Fernando também ouviria um grito, algum desrespeito do tipo, mas não com o professor Lúcio Pereira.
Para ele valia a lógica da preferência.
- Tá, vai...
Marcelo não aguentaria mais. Se levantou. Sua mente estava em outro lugar. Mas não diria nada. Simplesmente pegou suas coisas e se dirigiu a porta da sala.
- Aonde você vai?
Perguntou o professor.
- Para fora da sala! - respondeu Marcelo, em tom de afronta - não tá vendo?
Clara se levantou.
- Calma, Marcelo! - disse ela, chorosamente - por favor, volta pro seu lugar.
Então a sanidade voltou a Marcelo. O que ele estava fazendo.
Lentamente, se sentindo envergonhado, ele se dirigiu a sua cadeira, esperando continuar a aula normalmente.
- Agora, Marcelo, me acompanha, por favor. - disse o professor - não é você que escolhe se sairá ou não da minha aula.
Sem opção, Marcelo se levantou e foi com o professor até a sala da coordenadora.
Ao serem atendidos, o professor se antecipou a Marcelo em sua fala.
- Sabe, Ana - esse era o nome da coordenadora - o Marcelo tem demonstrado, não é de hoje, um certo problema com as minhas aulas...
- Não é bem isso, professora! O Lúcio sempre me trata diferente dos outros alunos, me humilhando e prejudicando.
Interrompeu Marcelo.
- Por favor, Marcelo - disse a coordenadora - se acalme e me explique o que aconteceu.
Marcelo respirou fundo e disse:
- O professor Lúcio sempre age de forma a me prejudicar, fazendo com que todas as aulas que eu tenho com ele sejam uma constante provação da capacidade dos meus nervos.
- Certo... - disse Ana - E, Lúcio, o que você tem a dizer sobre isso?
- Eu não sei onde ele me viu tratando-o diferente de outros alunos...
- Não viu!? - interrompeu Marcelo, com a voz alterada - Quer que eu te diga. Você me tratou diferente agora, quando fiz menos que os outros alunos e, ainda assim, minha punição foi maior, você me trata diferente quando me ignora e não tira uma dúvida minha, quando você fala em voz alta coisas que deveriam ser ditas entre nós. Você é injusto e cruel, professor.
- Certo, certo - interferiu a coordenadora, preocupada com a situação - Vamos fazer um trabalho para melhorar esse relacionamento de vocês, mas vocês precisam se esforçar... temos um combinado?
Marcelo e Lúcio só balançaram a cabeça, sem dizer uma única palavra.
Mas o combinado nunca foi cumprido. Até que Marcelo terminasse o colégio, ele foi assombrado por Lúcio, e suas constantes provocações e quase-maldades.
Fernando acabou por repitir o segundo ano. Duas vezes. Na segunda, saiu do colégio, e por um tempo Marcelo não ouviu falar mais dele.

domingo, 31 de agosto de 2008

Ainda mórbido, ainda que irônico

Aí jaz, ou melhor, aí está, mais um conto da minha fase mórbida. Não, não estou em depresão, pelo contrário, estou incontrolavelmente feliz.
Esse conto não é uma mensagem de apoio a suicídios, pelo contrário. É apenas uma história como outra qualquer que na minha opinião tem muito mais de cômico do que de trágico.

------------------------------------------------------------------------------------------
O IMAGINÁRIO AUTO-DEPRECIATIVO DE REGINALDO NUNES

Ao chegar ao apartamento depois de uma sessão de autógrafos na menor livraria mais perto de sua casa, o Sr. Reginaldo Nunes teve uma bela surpresa.
Um homem trajando um Black tie estava sentado em sua poltrona, do lado do abajur avermelhado com o Jack Nicholson estampado que ele havia ganhado em um evento especial sobre Stanley Kubrick.
Primeiro Reginaldo se assustou e deu um grito agudo. Depois levou a mão esquerda ao peito e apertou os olhos para entender melhor o que via. Então entendeu que deveria ser mais uma daquelas muitas pessoas que ele andava vendo nos últimos 15 dias e tinha aprendido a ignorar.
Virou-se, trancou a porta e seguiu para a cozinha.
“Você não me viu aqui?” foi o homem sentado na poltrona que perguntou com uma voz perfeitamente normal – nem aguda, nem grave, nem etérea, nem espalhafatosa.
Reginaldo não respondeu e estava obedecendo a ordens médicas quando não o fez.
“Você não me viu aqui?” inquiriu novamente o homem.
Reginaldo seguiu seus atos corriqueiros, pegou uma garrafa de leite e bebeu um gole em um copo de geléia de vidro grosso e tosco.
Passou pela sala indo para o quarto e impressionou-se pelo homem ainda não ter abandonado sua poltrona, e nem sua pose, de pernas cruzadas femininamente.
No caminho para o quarto ouviu um ruído estranho e voltou-se para a imagem sobre a poltrona. Agora ele estava com um cigarro na boca, aceso. A fumaça saia dele, tornando o ar periférico turvo.
Impressionou-se com o quanto o seu novo amigo imaginário era verossímil, quase teve vontade de ir até lá e tocá-lo, mas logo viu que se entregaria a loucura se o fizesse.
Seguiu até o quarto e abriu o armário que ficava embutido na parede, pegando um pijama listrado que estava ali dentro. Como sempre, não tomou banho, apenas despiu-se e vestiu a roupa de dormir. Mas ainda ouvia os sons de tragadas do homem na sala.
“Você pode fazer o favor de vir aqui, Reginaldo, seu imbecil?” berrou o homem ainda sentado.
Reginaldo dessa vez conteve-se para não responder.
“VEM AQUI AGORA, SEU MERDA!”
“EU NÃO SOU UM MERDA!” replicou Reginaldo, mas logo se arrependeu de ter-lo dito.
Respirou fundo e passou a mão na testa, que agora suava um pouco.
Resolveu arrumar sua cama devagar.
O homem finalmente se levantou e veio caminhando a passos largos até o quarto. Parou a porta e apoiou-se com o ombro direito sobre o portal.
“Por que você não tira esse pijama ridículo e vai tomar um banho, seu porco nojento!?”
Reginaldo não respondeu.
“Eu perguntei porque você não tira esse pijama ridículo e vai tomar um banho, seu babaca!”
Reginaldo tentou manter-se impassível.
O homem soltou uma risada sádica de satisfação e voltou para a sala.
Reginaldo sentou-se na cama e ligou a televisão do quarto. Começou a zapear e encontrou um filme antigo que ele não assistia a tempos. Ficou uns 5 minutos observando a tela.
Ouviu novamente os passos se aproximarem e aguardou, nervoso.
O homem parou novamente no mesmo lugar.
“Você não tem nada melhor para fazer do que assistir a essa droga na TV?”. Silêncio. “Inútil. Inútil.”
Nunes desligou a televisão e deitou-se na cama. Apoiando as mãos sobre o travesseiro e a cabeça sobre as mãos. O homem bateu a cinza do cigarro no chão e sentou-se um uma das pontas da cama de casal.
“Olha, Reginaldo, eu não quero te importunar, eu juro.”
Reginaldo vira-se na cama, para evitando a visão do homem .
“Eu só quero que você me ouça uma vez só.”
“Eu não vou ouvir nada!” respondeu, furioso.
“Já está ouvindo.”
Reginaldo sentou-se na cama, furioso.
“Não, eu não estou. Cala a boca!”
“Viu? Você está conversando comigo. Estamos dialogando, isso é bom.”
Uma lágrima escorre de um dos olhos de Reginaldo que volta a deitar-se, com o rosto virado para o lado contrário de onde o homem está.
“Vamos, cara, estamos indo tão bem. Fala comigo”
Reginaldo cobriu a orelha com o travesseiro e o apertou forte contra o rosto.
“Vamos. Vamos. Só quero conversar com você...” Silêncio. “Vamos, Reginaldo.” Mais silêncio. “Fala comigo, porra, eu não estou com paciência para suas gracinhas, cara. ME OUVE! Não me ignora!”
Reginaldo voltou a sentar-se na cama. “EU NÃO VOU OUVIR NADA” perturbado passa as mãos pelo rosto, aflito. “Você não existe, você não existe. Você... não... EXISTE! Sai da minha cabeça” então começou a golpear seu próprio crânio com as mãos, forte.
O homem se manteve em silêncio enquanto ele se batia, frenético. Aguardou paciente que ele parasse. Aprumou-se dentro do terno e então proclamou. “Pronto? Você já acabou com esse showzinho nonsense ou tem mais alguma afetação pelo caminho? Porque se você vai continuar com essa babaquice...” nesse momento Nunes tapou os ouvidos com a palma da sua mão. “Me ouve. Me ouve. Eu to dizendo que...” o escritor continua com as mãos nas orelhas “Reginaldo, eu to falando com você, você pode fazer o favor de me ouvir?” Reginaldo tira a mão das orelhas, finalmente. “Pronto, parece que agora você ouviu a voz da razão, né? Agora você vai me ouvir, não vai?” Silêncio. “Não vai?”, mais silêncio. “Bom, melhor assim”
“Olha só, Reginaldo, o que eu tenho pra lhe dizer é muito simples. Vou começar fazendo algumas perguntas, pra ser mais exato. Me diz. Pra que serve a merda da sua vida?”
Reginaldo se mantém em silêncio.
“Bom, sempre que você se mantiver em silêncio eu vou considerar que você não sabe a resposta.”
“Some daqui. Sai daqui!” Reginaldo disse essas palavras com a expressão impassível.
“Reginaldo, porra, não vamos regredir, né? Eu to só tentando te ajudar a se encontrar nessa vida inútil que você vem levando. Nesse número incrível de mentiras que você tem contado pros seus familiares, pros seus colegas, pros seus amigos, se é que você tem algum, além de mim. E isso tudo só pra... fingir... que você realmente é feliz. Vamos combinar que tá na cara que é mentira. Que tá escrito na sua testa: Eu sou um completo perdedor, me matem antes que eu o faça. E é nesse ponto que eu queria chegar, Reginaldo.”
Reginaldo continua sentado, com os olhos fixos, lacrimejantes, impassível.
“Meu amigo... O que mais você imagina que vai conseguir nessa vida? Todo mundo tá vendo. Você já tá velho. Você já tá tão velho. E não faz idéia das mentiras que escreve nos seus livros. E é POR ISSO que eles não dão certo. POR ISSO que você é um ENORME fracasso. Você não viveu a sua vida enquanto podia. E agora? Agora você não pode mais. E aí o que? Vai ficar prolongando algo que já devia ter terminado? Na verdade, prolongando algo que nunca existiu?”
Reginaldo manteve-se quieto.
“Foi o que eu pensei. Agora vamos, acabe logo com isso.”
O homem se levantou e saiu do quarto. Reginaldo continuou estático por mais alguns segundos.
Depois levantou-se e caminhou fúnebre para o banheiro. Abriu a torneira e deixou a água cair na pia. Observou-se no espelho. Molhou as mãos e limpou as lágrimas já secas por sobre o rosto. Mantinha-se impassível.
Enxugou o rosto e voltou para o quarto, refletindo sobre o que dissera o homem. Depois pegou o frasco cheio de comprimidos e sentou-se na cama. Abriu o frasco e o virou na mão. Pegando apenas uma pílula. Engoliu-a a seco. E repousou o frasco no criado-mudo. Deitou-se na cama e puxou o cobertor por sobre seu corpo.
“Foda-se minha mente” pensou. E depois fechou os olhos, mas só por algumas horas. Não enlouquecera. Ainda.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Me chamem de Mórbido, Funesto Mórbido.

Bem, amigos e amigas, vou postar mais uma vez nesse blog aqui alguns textos que eu escrevi. Mas tem um detalhe. Se a qualidade deles é duvidosa, a morbidez é INQUESTIONÁVEL, ou seja, se não querem ficar tristes vão ler outros textos.
Eu não sou nenhum maníaco suicida, pra quem não me conhece.

Estão aí.
-------------------------------------------------------------------------------------------------
Moça

Na morgue sombria, aguardava, sombrio
Bernardo e seu traje ensangüentado
Pelo corpo que vinha, sem pulso e frio
Imóvel, de olhos fechados

Chegado o corpo, feminino, esguio
E a alva pele de manchas maculada
Fez Bernardo sentir um cruel calafrio
E no peito uma dolorosa fisgada

Entortou-se para trás, afônico e tonto
E apoiou-se em um móvel qualquer
Plantou em seu rosto uma expressão de espanto
Ao notar que conhecia a mulher

Procurou, ansioso por alguma identificação
Onde estaria marcada?
Não havia seu nome, ou qualquer marcação,
Ela apenas morrera, e mais nada

O cadáver passara por um tratamento anterior
Estando limpo com muito asseio
Tornando visível como um esplendor
Um grande orifício em seu seio

Não teve coragem de começar a examiná-la
Antes de conhecer sua identidade
Abriu com os dedos seus olhos, cor de opala
E viu em seu reflexo a verdade

A princípio, lembrou-se vagamente
Do tempo que ainda estudava
E então, em sua mente e tão de repente
Surgiu a jovem que tanto amava

Os cabelos de cachos caindo
Por sobre os ombros tão finos
A boca rosada sorrindo
Encantando a todos os meninos

Lembrou-se dos dias imundos
Inteiros passados nos cantos
Olhando-a com seus olhos profundos
Agora desfeitos em prantos

Lembrou-se de como chorava
E cantava seu amor postergado
E de como se magoava
Por tão longamente ter-la amado

Arrependeu-se de não ter-la contado
Houvera a oportunidade uma vez
E chorou seu amor, mal amado:
Agora já era morta Inês.


------------------------------------------------------------------------------------------------
A velha

Ela girou a chave e entrou na sala de seu apartamento que fedia a naftalina e poeira. Nem acendeu a luz, pôs logo o saco pardo abarrotado de compras sobre a mesa de jantar e abriu as cortinas espessas para deixar a luz do sol invadir, dando vida aquela sala mórbida e senil.Os mais de sessenta e cinco anos pesavam por sobre suas costas, curvando-a. Seus cabelos grisalhos e em ondas prendiam-se em um coque malfeito, impedidos de cair por sobre seu rosto cheio de rugas típicas de velha.Sua velhice a envergonhava. Enraivecia-se por não poder mais cumprir as árduas tarefas domésticas, não poder limpar os cantos imundos e frios de sua casa soturna. Não poder trocar as inúmeras lâmpadas queimadas no seu teto.Envergonhava-se ainda mais de estar ultrapassada. De não conseguir usar o computador velho que apodrecia sobre a mesa do quarto de seu filho, que nunca mais a viera visitar.Sua expressão era de acentuada amargura. Ainda sentia a perda de ter sido abandonada pelo marido. De ter sido entregue às sombras e ao frio, como uma indigente.Colocou o LP do Vinícius que tinha na sua vitrola quase tão velha quanto a própria velha. E ouviu “Samba em prelúdio” uma, duas, cinco, oito, dez, doze vezes. Andou até seu quarto e viu o porta-retratos que trazia uma foto de três pessoas felizes. Era uma família. A mãe. O pai. O filho pequeno. Não era a velha. Não era seu marido. Ou seu filho. Poderia ter sido.Em muitos outros porta-retratos, pessoas diferentes sorriam para a velha, sempre em trios. Sempre os pais e o filho.A velha lembrou-se de uma vida que nunca teve e lamentou-se por não poder voltar àqueles tempos que nunca existiram.Mesmo muito emocionada, não derramou uma lágrima.Voltou à sala onde Vinícius agora cantava “Onde anda você” em outro disco. Pegou o saco pardo que arrebentou largando laranjas e tomates no chão imundo. A velha os observou e pulou-os, ignorando-os. Jogou os restos do saco pardo no lixo.Trocou o LP do Vinícius por um do Chico Buarque. Pegou o telefone e tentou o número da casa do filho insistentemente.Ninguém atendeu.As lágrimas começaram a cair de seus olhos, frenéticas. Quase jorrando. A velha não podia mais agüentar segura-las. Estavam fora de controle.Abriu a porta e ainda se ouvia Chico Buarque lá dentro. Andou até a escada enquanto ele estava no meio de “Pedaço de Mim”Ela não teve medo de sua decisão, pensara naquilo durante anos. O vão entre a escada que formava uma espiral de lá, do 10º até o saguão. Ela debruçou-se sobre o muro que protegia a queda, e tropeçou em sua própria mente. E flutuou no ar por alguns instantes, até se acabar no chão em tempo de terminar a música do Chico: “Leva os olhos meus, que a saudade é o pior castigo e eu não quero levar comigo a mortalha do amor, Adeus.”

Estão aí os textos. Façam o favor de comentar.

sábado, 23 de agosto de 2008

Eu tô é Fu.Ido

Oi pessoal...
Bom:
Ontem fui parar no hospital. Faltei nesses dias porque tive uma crise de bronquite (não tinha há anos) muito forte e muito incomum (nunca tive uma igual) que surgiu do nada. Geralmente a bronquite envolve tosse, muita tosse, e muita secreção (catarro). Mas dessa vez o que me assustou foi o fato de não haver nem tosse nem catarro. Meu pulmão estava limpo e eu não tinha força para respirar. Eu não conseguia ficar em pé, e eu quase desmaiei umas quatro vezes. Tive que sair da escola na quarta-feira, correndo, pois essa falta de ar havia surgido do nada. E o remédio que eu carregava para qualquer emergência (uma bombinha) estava fora da validade. Não havia gerado efeito nenhum.
Chegando em casa, fui fazer nebulização, eu não tinha adiantado de nada. Acabei tendo fraqueza e taquicardia por causa dos remédios e dormi.
No dia seguinte, fui em uma pneumologista e ela me receitou 6 remédios. Mas os efeitos demoram para serem realizados... São aqueles progressivos, sabe... Patológicos. Eu acho que é esse o nome.
E eu lembro de ela ter me falado para ir ao pronto socorro se sentisse muita falta de ar, pois os remédios não iriam ajudar com intensidade em uma emergência.
Bom. Aí eu voltei pra casa, andando que nem um velho corcunda (ainda tomei um cafézinho com waffle) e respirando que nem um rato asmático.
Eu não sei como é um rato asmático, Mas ele não deve respirar direito.

Depois de tomar todos os remédios, fazer todas as nebulizações e dormir mal pra cacete, descobri que emagreci bastante e que minhas olheiras aumentaram, me deixando que nem um zumbi. Já era sexta-feira, e eu estava bem ferrado.
Sem ter nenhuma melhora, minha mãe e eu achamos melhor irmos logo para o hospital. Eu estava muito... mal.
Chegando lá, no pronto socorro do barra dor, vi outros pacientes com doenças mirabolantes e vi aqueles médicos andando para lá e para cá. Graças a deus que eles existem mas... Puta que pariu, vão ser sádicos para escolher essa profissão lá na casa do caralho!
Fui atendido por uma clínica geral e ela me encaminhou para o setor da nebulização (para variar) e em seguida para o "corticóide venoso" e para a coleta de sangue. Primeiro, eu fui fazer a coleta de sangue. E não é a toa que eu não gosto de enfermeira gorda. Todas elas são brutas. Você verá a seguir o que ela fez.
Colhi o sangue (doeu e ficou latejando, mas geralmente é assim né) e fui para o corticóide venoso. O enfermeiro queria injetar na minha mão, mas na mão dói pra cacete; Eu pedi que botasse no braço, no mesmo da coleta de sangue. Meu braço direito. Em seguida, ao preparar a medicação entrou na cabine e disse que ia dar uma "espetadinha" (todos dizem isso)
Ok. Espetadinha;. Eu não gosto de olhar, mas eu sempre olho. Ele injetou a agulha em meu braço, e disse:
- Sua veia está profunda...
Eu perguntei:
- Isso é bom ou ruim?
Aí ele ficou em silêncio. Em seguida:
- Ah, nenhum dos dois.
Tá né.
Aí ele enfiou a agulha, e não achava a veia. Encontrou. Dessa vez doeu pra caralho. Ele começou a injetar a cortizona e perguntou:
-Tá doendo?
-Tá - Repondi.
-Muito?
-Pra cacete.
-Pois é. vou ter que parar. Sua veia está estourada.
-Como? Isso foi de agora ou foi de antes?
- Foi de antes.
Ah.... Só podia ser. AQUELA VACA DA COLETA DE SANGUE ESTOUROU A PORRA DA VEIA DO MEU BRAÇO. E agora, além de eu mal conseguir respirar, eu mal mexia o braço. E não parava de sair sangue. E deu muito nervoso.
Fiquei nesse estado uns 15 minutos... Aí ele voltou. E ia injetar no meu braço, fazer um terceiro furo. Mas aí eu falei que não, para que bostasse no meu outro braço.
Aí ele injetou a cortizona, e eu fiquei bem mole, e alto.
A cortizona é uma substância muito forte utilizada para as pessoas que tem problemas com asma. Ela salva as pessoas no momento da crise. Porém, se usada em excesso, traz problemas como cegueira, diabetes, problemas circulatórios e tal. Minha avó tinha asma. Ela usou cortizona por 18 anos. Ela começou a ficar com a vista muito embaçada. Ela suspendeu. Ela morreu. Em 1993.
E eu estava injetando uma dose cavalar de cortizona (uns 150 ml).
Em seguida, fiz a nebulização, e fiquei de molho. O resto do dia. Sob observação, e tal. ainda não sabiam o que eu tinha, mas sabiam que era do fundo alérgico da bronquite.
Fiquei lá, olhando o nada, e pensando na vida.
Ponto.
Mais tarde, fui para a radiografia. E descobri que não tenho NADA nos pulmões. Nenhuma secreção. Tudo limpo. E que meus batimentos cardíacos estavam normais e a taxa de O2 no sangue estava normal. Eu não estava respirando direito por causa da alergia que eu tenho e do tratamento que eu havia suspendido há meses. O remédio tava me dando taquicardia, mas eu não devia ter parado. Eu tinha que ter me conformado com a aceleração do coração. Eu descobri que tenho de fazer um esporte para fortalecer os pulmões (natação). E eu odeio esportes. Eu nunca fiz porra nenhuma. Eu cheguei a fazer muay-thai, e gostava, mas eu fiquei doente aí perdi a força de vontade. Agora eu tneho de fazer natação, para fortalecer os pulmões e para não precisar ir para o hospital com 17 anos.
Descobri que eu serei o próximo Michael Phelps.
Não. Tá na cara que foi uma piada. E sem graça.
Mas eu também não vou ser um rato asmático.
Pelo menos uma barata descascada que pratica esportes e tem uma vida saudável.
Desculpe o mau humor.
Ah, e a cortizona me curou. Agora estou respirando bem melhor. Mas eu tenho que tomar 9 remédios para manter a crise enfraquecida. Aliás. Tenho que tomar 3 agora. Me atrasei, escrevendo essa porra.
Esse drama do caralho.
Tchau.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Aquele que não é Importante.

É uma poesia sobre alguém que ninguém se importa, e que geralmente tem nojo.


O Mendigo


Ninguém nunca fala sobre ele
Ningúem nunca escreve sobre ele.
Ele não é nada para ningúem
Ele não é um ser vivo, ele não tem sentimentos.

Vamos lá,
Deixe-o de lado.
Queime-o
A cidade será "desinfetada".
Quem é ele?
Quem seria?

Nós não queremos saber daquele que cata as latas
(Do que a gente bebe)
Para sobreviver,
Não queremos saber,
Daquele,
Que não tem um casaco para se proteger.
E nenhum grito de socorro será atendido.
Nunca.
Porque ele não existe...Ningúem o vê.

E o Louco trará o troco.
Fará você pagar por aquilo que (você) roubou.
As queimaduras serão Apagadas.
E VOCÊ Será queimado.
Você é a verdadeira sujeira,
Que ainda virá a sumir,
E "desinfetará" a cidade.

sábado, 9 de agosto de 2008

A perda!

Hoje faz uma semana e dois dias que meu sogro morreu. Minha esposa está muito triste (claro) e eu angustiado! Por mais que esperássemos por esse momento (ele vinha em uma situação delicada e piorando! Cuidado com o diabetes. Ou será a diabetes?!) nunca achamos que ele realmente chegará para nós.
Eu perdi uma das minhas melhores amigas em 2002. Um golpe doloroso do destino. E desde então achei que estivesse preparado para outro momento destes, mas percebi meu engano. Ao ver a dor da minha esposa coloquei-me em seu lugar e a sensação foi horrível, inconsolável. Provei que estava enganado e que a perda é um dos piores sentimentos que se pode ter. A dor passa, o pior é a falta que a pessoa faz. O que a língua portuguesa lindamente chama de saudade.
Jamais estaremos prontos para a saudade. E se o tempo cura tudo, a saudade não tem cura. Pois quanto mais se passa o tempo mais a saudade aumenta e dói, pois nesse caso não há expectativa de reencontro.
Por isso acabei escrevendo agora mesmo uma poema sobre a perda. Não achei dos meus melhores, mas foi o que o coração mandou a mão escrever (quem escreve poema é o coração, e não a cabeça) nesse momentos. E achei outro que escrevi sobre o sentido da vida (é impossível falar sobre morte e não pensar nisso) e vou colocá-los logo abaixo.

A Perda
Imaginei-me pronto desta vez
Preparava-me desde a primeira
Quando a dor superou a esperança
E a angústia sufocou a alma
Encarando-a novamente
Provei-me enganado
O punhal perfurou a carne
E feriu fundo no peito
Desta feita indireta
Sofro pela amada
Sua parte que se vai
Seu pedaço que aqui fica
Quando o alvo for em cheio
Desejo pronto a esperar
Mas nunca curarei
A dor da perda
__________________________________________________
O sentido da vida
Viver, sem medo do amanhã
Viver, sem remorso do passado
Viver, com esperanças a cada manhã
Viver, apesar do luto agoniado
Oferecer, sem esperar recompensa
Oferecer, sempre que lhe couber
Oferecer, apesar de toda descrença
Oferecer, mesmo após esmorecer
Sorrir, diante da maior dificuldade
Sorrir, enquanto espera a grande chance
Sorrir, repleto de suavidade
Sorri, mesmo que seja de relance
Agradecer, por tudo que conquistar
Agradecer, por tudo que perder
Agradecer, por ter a quem amar
Agradecer, por cada alvorecer